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Dr. Renan Périssé

26/08/2026

Introdução

A caneta funcionou. Você perdeu quinze, vinte, às vezes trinta quilos. As roupas voltaram a servir, os exames melhoraram, a autoestima subiu junto. Aí chega o momento em que a medicação precisa ser suspensa, seja pelo custo, pela decisão de encerrar o tratamento ou pela convicção sincera de que o objetivo foi alcançado e agora é só manter.

Poucos meses depois, a fome volta com uma intensidade que não existia. O apetite não é apenas maior: ele é diferente. Vem acompanhado de um pensamento constante sobre comida que havia desaparecido durante o tratamento. E o peso começa a subir de novo, sem que nada de óbvio tenha mudado na rotina.

Isso não é fraqueza, não é recaída e não é falta de compromisso. É fisiologia previsível, documentada e, o mais importante, gerenciável. O que separa quem mantém o resultado de quem devolve tudo raramente é a força de vontade. É a existência ou não de um plano para o depois.

O dado que quase ninguém apresenta na consulta

O estudo STEP 1, que consagrou a semaglutida no tratamento da obesidade, acompanhou quase dois mil adultos por 68 semanas e registrou perda média de 17,3% do peso corporal. Esse é o número que aparece em toda propaganda e em toda reportagem.

O que raramente aparece é a extensão desse mesmo estudo, publicada em 2022. Ela acompanhou os participantes por mais um ano depois da retirada da medicação e do programa de estilo de vida. O resultado: em doze meses, o grupo recuperou cerca de dois terços de todo o peso que havia perdido. Os marcadores cardiometabólicos que tinham melhorado, como pressão, lipídios e glicemia, voltaram na mesma direção.

A conclusão dos próprios autores é a parte que interessa: a obesidade se comporta como doença crônica, e o tratamento precisa ser pensado com a mesma lógica de continuidade que se aplica a hipertensão ou a hipotireoidismo. Ninguém suspende o remédio da pressão porque a pressão normalizou e chama isso de alta.

Por que o corpo reganha: o peso perdido não é neutro

Perder peso e perder gordura são coisas diferentes, e essa distinção é o centro do problema.

Em perdas rápidas conduzidas apenas com supressão do apetite, uma parcela relevante do que sai da balança é tecido magro. A literatura recente mostra uma variação grande, com estudos apontando de 25% a 40% da perda total vindo de massa livre de gordura quando não há aporte adequado de proteína e treino de força associado. Estudos que acompanharam composição corporal por DEXA mostram que a massa magra cai nos primeiros meses e depois tende a estabilizar, e que os desfechos de força melhoram justamente em quem mantém estímulo muscular durante o processo.

A consequência é direta. Menos massa muscular significa menor gasto energético de repouso e menor capacidade de captar glicose. O paciente termina o tratamento pesando menos, porém com um metabolismo mais lento do que o de alguém do mesmo peso que nunca engordou. Ele volta a comer normalmente e engorda com uma facilidade que não tinha antes.

Some se a isso o eixo hormonal do apetite. A grelina, que sinaliza fome, sobe depois da perda de peso. A leptina, que sinaliza saciedade, cai proporcionalmente à gordura perdida. Enquanto a medicação está ativa, ela mascara esse novo cenário hormonal. Quando sai, o paciente descobre que está negociando com um corpo mais faminto do que aquele que iniciou o tratamento. A fome que volta não é a fome antiga: é uma fome amplificada por adaptação metabólica.

O erro de tratar a caneta como um ciclo

O uso do GLP1 no Brasil se popularizou com uma lógica emprestada da estética: começa, faz o ciclo, para. Essa mentalidade é a principal responsável pelo efeito sanfona que a medicação está produzindo em série.

Um análogo de GLP1 não é um ciclo, é um tratamento. Ele age sobre os mesmos circuitos cerebrais de apetite e saciedade que estão desregulados na obesidade. Retirar a medicação sem ter construído nada por baixo devolve o paciente exatamente ao ambiente hormonal de onde ele saiu, agora com menos músculo e um gasto energético menor.

Pior ainda é o cenário do uso feito por conta própria, comprado sem prescrição, sem avaliação de composição corporal, sem ajuste de proteína, sem acompanhamento de exames e sem qualquer plano de encerramento. Nesse caso não existe protocolo de saída porque nunca existiu protocolo de entrada.

O que é um protocolo de saída bem feito

Encerrar o uso da medicação pode ser uma decisão clínica perfeitamente adequada. O que muda o desfecho é como isso é conduzido.

A retirada é gradual, nunca abrupta. A dose desce em degraus ao longo de semanas ou meses, o que permite ao apetite retornar de forma progressiva e dá tempo para o paciente perceber e corrigir o aumento de ingestão antes que ele vire quilo na balança.

A massa muscular precisa estar construída antes da saída, não depois. Treino de força consistente e proteína distribuída ao longo do dia, em torno de 1,6 a 2,2 gramas por quilo de peso conforme a indicação individual, são o que preserva o motor metabólico. Este é o item mais negligenciado e o mais decisivo de todos.

O monitoramento continua depois do fim da medicação. Peso, circunferência abdominal, composição corporal e exames metabólicos seguem sendo acompanhados por pelo menos doze meses. Um reganho de dois quilos identificado no segundo mês é um ajuste de rotina. O mesmo reganho percebido só quando chega a doze quilos é um novo tratamento inteiro.

O ambiente alimentar precisa estar reconstruído durante o uso, e não improvisado depois. Os meses de apetite reduzido são a melhor janela que o paciente terá para instalar hábitos, porque é o único período em que mudar a alimentação não exige lutar contra a fome. Quem usa essa janela sai do tratamento com um novo padrão consolidado. Quem apenas espera o peso cair sai com o padrão antigo intacto.

E existe a decisão honesta sobre manutenção. Para uma parte dos pacientes, a resposta correta é permanecer em dose baixa de manutenção por tempo prolongado, do mesmo modo como se mantém qualquer terapia de doença crônica. Essa conversa precisa ser clínica, não moral.

Conclusão

O reganho de peso depois da suspensão do GLP1 não é surpresa, não é fracasso pessoal e não é motivo para desistir do tratamento. É um comportamento fisiológico documentado, com magnitude conhecida, e que responde muito bem a planejamento.

A pergunta certa nunca foi quanto peso a caneta faz perder. É o que sobra quando ela é retirada. Massa muscular preservada, hábitos instalados, exames corrigidos e acompanhamento ativo são o que transforma perda de peso em resultado permanente. Sem isso, o que se compra é um empréstimo de curto prazo com juros altos.

Se você está usando GLP1 sem acompanhamento, ou pretende encerrar o uso nos próximos meses, agende uma avaliação com a equipe do Instituto Americano e construa o seu protocolo de saída antes que a fome volte.

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